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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Maestro francês da OSESP desrespeita memória de Villa Lobos, gestão Neschling e música brasileira

/ On : segunda-feira, novembro 15, 2010 - Contribua com o Transparência São Paulo; envie seu artigo ou sugestão para o email: transparenciasaopaulo@gmail.com

Neschling enfrenta os desafinados da OSESP


Neschling: é duro enfrentar o deslumbramento provincial
Saiu no Blog do Neschling


Nunca houve Tortelier ou O retorno do Conselheiro Acácio

Tento ser otimista. A OSESP faz parte de minha biografia e quero acreditar que ela vai sobreviver às intempéries. Que vai realizar seu destino de estrela ascendente no universo das orquestras sinfônicas. Confesso, entretanto, ser difícil continuar acreditando nessa vocação quando leio nos jornais o que se faz com ela, tantos desmandos, tanta inépcia e desatino.

Sei que não convém a um artista responder a críticas. Mas há limite para o quanto podemos ouvir calados, sobretudo quando seu nome aparece diversas vezes no meio da embrulhada. Foi o que aconteceu na matéria sobre a OSESP publicada ontem no Estado de São Paulo, em que, após considerações iniciais do jornalista João Luiz Sampaio, lêem-se duas entrevistas, uma com o Maestro Yan Pascal Tortelier, dada a um repórter alemão, e outra inédita com o “consultor internacional” Henry Fogel, concedida em outubro deste ano.

Na matéria, intitulada “Relações delicadas no universo da OSESP”, percebo mais uma vez a embalagem política que se dá às discussões sobre a orquestra nos últimos tempos: fala-se em democracia, em jogos de poder, em autoritarismo, em liberdade, em “orquestra do povo” e outros conceitos, dando a impressão que se trata mais do Partido OSESP do que de uma orquestra sinfônica, com suas necessidades e especificidades. Ao mesmo tempo, ignora-se completamente todo o trabalho social e educativo que a OSESP já vinha fazendo desde sua refundação. Já no início desta década o lema da OSESP era “pode aplaudir que a orquestra é sua”, o que significa o desejo de capilarização de um projeto de excelência, ligado à uma ideia de auto estima e dignificação da sociedade. Não se comenta porém os recentes aumentos dos preços das assinaturas e dos ingressos, a tentativa de acabar com as meias entradas para estudantes, para a terceira idade e aposentados, medidas, estas sim, que elitizam projeto e implodem o discurso populista adotado. Ignora-se o fato de o número das assinaturas cair e continuar caindo. Confundem-se conceitos como disciplina com opressão, autoridade com autoritarismo. Procura-se imprimir a pecha de “old fashion” ao sistema de trabalho que eu havia instituído na OSESP, sem definir no entanto o que seria “moderno” e “new wave” na condução da orquestra.

Se Tortelier tem mesmo com a OSESP a relação que ele expõe na matéria do jornal, não possui nenhuma autoridade sobre os músicos. E sem essa autoridade não lhe será possível imprimir nenhuma personalidade ao conjunto. Em vez de dizer que “não há mais Neschling” na OSESP, seria mais correto afirmar que “nunca houve Tortelier”. Na entrevista, meu colega afirma que “sua função agora é colocar a orquestra de volta nos trilhos”. E que “com o tempo vai fazer alguns ajustes”. Pergunto: até agora, passados dois anos de sua contratação, o que ele fez? O que significa dizer que “a orquestra estava fora dos trilhos”? Pouca qualidade? Poucos prêmios? Críticas desastrosas? Poucos assinantes? Quais os ajustes que ele considera necessários? Por que não foram feitos até hoje? Deixou-se tudo para o último ano, depois que sua fritura está mais que explícita?

Tortelier afirmou ao público presente à Sala São Paulo, antes de partir para a atual tournée européia, que o repertório da viagem traria “coisas” novas para a orquestra, referindo-se, sobretudo ao Concerto para Orquestra de Lutoslawsky. Engana-se o maestro. Já executamos essa obra, e muito bem, anos atrás. Quem quiser conferir é só ouvir a gravação da Radio Cultura. Dizer que a orquestra tem dificuldades para tocar essa obra é menosprezar a capacidade dos nossos músicos. Deixei uma orquestra técnica e musicalmente preparadíssima, que era copiosamente elogiada pelos maestros convidados. Nenhuma orquestra toca a Rapsódia Espanhola de Ravel bem “de cara”, como afirma Tortelier. Mas a Rapsódia Espanhola tampouco é novidade para a OSESP. Tocamos diversas vezes essa peça procurando sempre atingir as intenções impressionistas que o compositor desejava.

E qualquer dificuldade além do esperado que Tortelier tenha enfrentado ao refazê-la com a OSESP certamente não se deve às limitações da orquestra.

Mais preocupante, porém são os comentários de Tortelier sobre Villa-Lobos. Por mais encantado que eu tenha ficado ao descobrir que ele ama o “sabor e o charme” de Villa-Lobos, isso soou aos meus ouvidos como um turista francês falando das mulheres de biquini na praia de Copacabana. Se eu chegasse à França e dissesse que amo o sabor e o charme de Debussy, creio que jamais poderia voltar a encarar uma orquestra francesa. Villa-Lobos exige um pouco mais de respeito do que essas afirmações folclóricas e típicas de europeus arrogantes. Ao menos, o maestro sabe que gravamos a obra do mestre, e que apesar de “algumas notas erradas” (suprema pretensão do colega) ganhamos o Diapason d’Or de l’Année em Paris. No entanto, o desempenho com a nossa música (“a música deles”, como Tortelier explicita) o decepcionou. Será que, nessa altura da vida, ainda temos que explicar às pessoas que não existe “música nossa e música deles”? Que não existe engenharia francesa e engenharia norueguesa, mas sim engenharia bem feita ou mal feita em qualquer lugar? O Maestro assim desrespeita Villa-Lobos e nossos músicos. Dizer que vem ao Brasil ensinar-nos a Rapsódia Espanhola de Ravel e curtir nossas especiarias corresponde à pretensão de um Villegagnon querendo levar o nosso ouro e deixar uns espelhos para os índios. Ao querer demonstrar humildade, Tortelier piora as coisas. Diz que quer aprender os Choros n. 6 com a nossa orquestra. Isso não está correto. Especialmente numa tournée internacional. Parece que virou moda usar a OSESP como laboratório para estudos de direção artística, musical e otras cositas más. Para regentes, críticos e editores.

Tortelier afirma ainda que busca uma “outra dimensão”, e quer “liberdade para fazer música em outro nível”. Com todo o respeito ao meu colega, isso de “outra dimensão” e “outro nível” está mais para guru espiritualista e xamã da Califórnia do que para regente de orquestra. Uma orquestra é formada por profissionais competentes, como ele mesmo diz, e precisa de um maestro competente e preparado para incutir uma interpretação que chegue o mais perto possível das intenções do compositor. Essa história de “colorir a interpretação” soa mais como as críticas poético-musicais que eu encontrava antigamente em certos cadernos culturais.

Quanto às afirmações de Henry Fogel em sua entrevista, o buraco é mais em baixo. Confesso que terminei a leitura do “conselheiro internacional” estarrecido. Se me permitem a comparação, Fogel está muito mais para “Conselheiro Acácio” do que para “conselheiro internacional”. Não há nenhuma novidade nem revelação no que ele tem a dizer. Só o “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues. Frases lapidares, dignas de um Barão de Itararé, como: “músicos profissionais estudam música desde cedo” ou “o trabalho do maestro é fazer com que todos toquem na mesma sintonia”. É mesmo necessário pagar um conselheiro internacional para dizer essas platitudes?

Fogel preconiza uma temporada em que o titular faça por volta de 13 concertos e o resto sejam maestros convidados. Exatamente o que acontecia quando eu estava à frente da Orquestra. Cadê a novidade? Nosso consultor traz o exemplo de George “Chaunti” (!!!), que desconfio ser Sir George Solti, grande maestro que esteve por anos à frente da Orquestra de Chicago e que Fogel considera “old fashion”. Durante a gestão de Fogel como Diretor Executivo, Solti deixou a Direção Musical de Chicago e foi substituído por Daniel Baremboim. Não creio que este grande músico encarne o exemplo da democracia tão alardeada por nosso Acácio. O problema que vejo é que Fogel acha que estamos em Chicago, nos EEUU, com seu público, sua tradição centenária, suas leis de incentivos fiscais, sua regulamentação de heranças, tudo tão diferente do que temos por aqui. Querer fazer com que uma orquestra em São Paulo, quase inteiramente patrocinada por verbas públicas, portanto dependente politicamente do Poder Público, siga modelo norte americano é uma utopia delirante. Nossa realidade política, econômica e social é outra e necessita de soluções diferenciadas.

Fogel, numa prolepse maravilhosa, descarta logo a esperança de que tenhamos um grande nome internacional à frente de nossa orquestra, porque esses estão todos ocupados. Grande novidade. E diz que leva tempo para achar alguém e que não adianta ter pressa. O Conselho da OSESP já ouviu isso bem antes, e não acreditou.

Fogel apresenta o novo titular como uma espécie de coringa, não necessariamente brasileiro, não necessariamente homem. Só o que se sabe é que não pode ter menos de 35 nem mais de 55 anos. Isso pelo menos descarta logo um número enorme de excelentes candidatos. Mas num novo jorro acaciano, Fogel afirma que o novo regente deverá ser talentoso e dedicado. Ainda bem. Que dizer se viesse para cá um medíocre preguiçoso? O que o consultor não explica são as funções do novo maestro. Diz apenas que o resto será feito por Arthur Nestrovsky, autor da obra poética “Pedra”, publicada como comentário ao último post desse blog. Mas como Nestrovsky fará isso?

São estas as questões que devem ser pensadas. A principal orquestra sinfônica do Brasil não é uma orquestra qualquer. Não há no nosso País outras centenas ou milhares de orquestras sinfônicas, muitas de ponta, como nos EEUU e na Europa. Aqui tem uma só. Que tem suas peculiaridades. Seus problemas e características específicas. E por ser única, é frágil. Necessita de cuidados especiais e estratégias de quem conhece a nossa realidade e o repertório nacional.

Quando eu disse na minha fatídica entrevista ao Estadão, em novembro de 2008, que a orquestra ainda não estava madura para cuidar de si própria, que os músicos precisavam abandonar a proteção da mediocridade (mediocridade no sentido literal da palavra: defesa do que é médio, do que é comum) e serem responsáveis pela excelência de seu futuro, fui despedido. Dois anos depois vem meu sucessor e diz a um jornal estrangeiro exatamente a mesma coisa. Afirma também que há jogos políticos na OSESP. Informa que “há um potencial enorme e que espera que este não seja destruído pela política”. Lamento dizer, mas isso já está acontecendo há muito tempo. Será que ele também vai ser demitido assim que voltar da tournée? Espero que não.

Tudo isso me parece pouco auspicioso. Acho curioso que numa orquestra com tantas cabeças no seu comando, um editor, diversos diretores e conselheiros, não tenha sido encontrado alguém para comentar as declarações polêmicas do maestro, como afirma o jornalista. Será que estão todos tão indignados com as declarações de Tortelier que se recusam a comentar?

Talvez seja essa a razão para que ninguém se pronuncie. Pior seria se o motivo desse silêncio fosse a falta do que dizer. Isso sim, seria o fim.

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