Prefeitura, governada por Gilberto Kassab (DEM) e aliada de Serra e Alckmin, direciona três vezes mais verba por morador no centro do que em regional da periferia.
Orçamento prevê R$ 38,07 por morador de Capela do Socorro e R$ 152,23, para Sé

Para Capela do Socorro, o governo municipal quer dar cerca de R$ 26,5 milhões para atender seus 696.941 moradores - ou seja, R$ 38,07 por pessoa. Considerando a mesma relação na Sé, o resultado é de R$ 152,23 por habitante. A reportagem do R7calculou a relação verba/morador das 31 subprefeituras da capital paulista e constatou que, em distritos da periferia, o valor por habitante é menor (veja infográfico abaixo).
Especialistas consultados pelo R7 ponderam que a região da Sé conta com vários serviços públicos, o que demanda atenção especial. Quem frequenta a região também aponta essa necessidade. É o caso do vendedor Samuel Ferreira que trabalha no distrito da República, na Sé, que diz que o centro "merece atenção especial".
Entretanto, o valor orçamento/morador de Capela do Socorro ainda é baixo se comparado com a segunda regional que mais recebe dinheiro pela proposta da prefeitura: a subprefeitura de Santo Amaro, na zona sul. Essa região, que engloba as áreas do aeroporto de Congonhas e os distritos de Campo Belo e Campo Grande, receberia por morador 250% de verba a mais do que Capela do Socorro.
Além de ser a subprefeitura com menor verba por pessoa, Capela do Socorro deve perder no ano que vem 17,8% da verba dada neste ano, de acordo com a proposta da prefeitura. Na semana passada, o R7 noticiou que o projeto da prefeitura dá mais verba para a maioria das subprefeituras cuja população tem maior renda e diminui daquelas onde a população tem ganho médio menor.
A verba das subprefeituras é destinada à chamada zeladoria, ou seja, à conservação da infraestrutura dos bairros, como poda de árvores, manutenção de praças, asfalto, pequenas obras, entre outras. A reportagem esteve em Capela do Socorro nesta semana e verificou que a calçada da subprefeitura estava inacabada. Uma praça a cerca de 500 m da sede da regional encontrava-se com a grama alta e com um brinquedo balanço, em má conservação (veja galeria de fotos). A subprefeitura não se manifestou sobre essas questões.
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O aposentado Alberto Rodrigues Neto, que vive perto da praça em má conservação, conta que, de vez em quando, os próprios moradores podam as árvores. O também aposentado João Almeida Leite mora a alguns metros de Alberto e diz que a prefeitura "abandonou" a área. Leite conversou com a reportagem enquanto limpava a vegetação de uma calçada em frente a um terreno baldio.
Apesar de Santo Amaro ser uma das subprefeituras com maior verba per capita, o R7 fotografou um carro do órgão com pneus de vários formatos e carecas. A regional não se manifestou até a publicação desta reportagem.
Outro lado
O economista Cícero Liberal Yagi, da Rede Nossa São Paulo, diz que a proposta orçamentária acaba beneficiando regiões desenvolvidas da cidade. Para ele, a capital não é homogênea em termos de infraestrutura e distribuição de renda.
– Tem regiões da cidade com níveis equivalentes aos países europeus mais desenvolvidos ao lado de zonas parecidas com a África mais pobre. Na região mais carente, deveria haver uma atitude para melhorar a qualidade, mas não é o que acontece.
A professora Odete Medauar, titular de direito administrativo da faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), concorda com Yagi. Ela afirma não ver lógica na divisão da prefeitura e diz que seria importante obter um posicionamento do governo sobre o assunto.
A prefeitura afirma, por meio de nota, que é equivocado fazer o cálculo de distribuição de recursos baseado na população. "Os principais investimentos, programas e ações são executados com verbas da própria Coordenação das Subprefeituras e por outras secretarias", diz o texto. Entretanto, essa secretaria, assim como as demais, não discrimina a distribuição de dinheiro por região.
Na nota, a administração municipal promete que os investimentos de secretarias como Saúde, Educação e Transporte "são executados justamente nas regiões onde há maior demanda, ou seja, as mais carentes da cidade".
extraido do R7 com modificações do TSP