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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Apesar da falta de controle, mídia tenta blindar governo Alckmin do escândalo das emendas parlamentares.

/ On : quinta-feira, outubro 06, 2011 - Contribua com o Transparência São Paulo; envie seu artigo ou sugestão para o email: transparenciasaopaulo@gmail.com
(do Transparência SP)

Conforme as informações vão aparecendo, de duas uma: ou o governo estadual é conivente com a corrupção no caso da liberação de recursos de emendas parlamentares, ou então estamos assistindo a uma total incapacidade de gestão pública, também passível de investigação.

A pauta básica do escândalo

(do Observatório da Imprensa, por Luciano Martins Costa)

Os jornais paulistas finalmente começam a sair do imobilismo diante das denúncias de falcatruas na Assembléia Legislativa. Na edição de quinta-feira (6/10), a Folha de S.Paulo publica reportagem sobre uma emenda parlamentar destinada a financiar uma construção na cidade de Lourdes cuja utilidade ninguém sabe explicar. Nem o deputado que obteve a verba, nem o prefeito da cidade, muito menos o governo do estado.
Esse é provavelmente o modelo de obra que representa o esquema de propinas denunciado pelo deputado estadual Roque Barbiere, do PTB.
O mistério em torno do barracão avança pela reportagem adentro. A funcionária da prefeitura encarregada das licitações, que supostamente contratou a empreiteira que está fazendo a obra, também não sabe, os operários ignoram e os moradores desconhecem. A Folha indica que há outros “barracões” espalhados pelo estado, mas oficialmente ainda não se registram sinais de qualquer movimento das autoridades no sentido de investigar a denúncia de que parlamentares cobram propina para destinar recursos a prefeituras através de suas emendas ao orçamento.
O jornal lembra que os deputados podem apresentar emendas no valor total de até 1% do orçamento, o que dá a quantia de R$ 188 milhões por ano.
Jornalismo declaratório
O Estado de S.Paulo publicou,em 23 de setembro, que o Ministério Público Estadual havia sido alertado para a gravidade das declarações de Barbiere, mas até agora não foram divulgados dados da investigação.
Segundo os jornais, o governador Geraldo Alckmin resolveu falar mais incisivamente sobre o assunto, mas não apresentou uma resposta. Apenas voltou a cobrar, desta vez com mais ênfase, que o deputado denunciante apresente os nomes dos colegas que recebem propina.
Barbiere já havia declarado que não irá citar nomes, porque isso não é necessário: basta o governo rastrear as emendas solicitadas por parlamentares fora de suas bases eleitorais.
Mas há uma diferença enorme no tratamento que os dois principais jornais do estado dão à manifestação de Alckmin. A Folha coloca a fala do governador num canto de página. O Estado de S.Paulo faz da declaração sua manchete principal do dia.
Não há como dissimular: essa decisão editorial indica que, seja qual for o desenrolar das investigações, se houver investigação, o Estadão procura blindar o governador.
Escolher para manchete, no meio de um escândalo, uma frase inócua como “Alckmin cobra deputado que denunciou venda de emendas” é mais do que o velho declaracionismo – é o sinal para que os denunciados comecem a cobrar o denunciante.
A “reportagem” que se segue à manchete é apenas uma colagem de declarações, uma delas do presidente da Assembléia, Barros Munhoz, ameaçando Roque Barbiere de processo por quebra de decoro parlamentar.
Denunciante denunciado
Barbiere vai ser convocado ao Conselho de Ética e deve prestar seu depoimento sob pressão. A única possibilidade de ele não ser transformado de denunciante em denunciado é a ação rápida e efetiva do Ministério Público e a divulgação das investigações pela imprensa.
Nesse sentido, destaque-se a enorme diferença nas abordagens do Estadão e da Folha: enquanto o primeiro claramente isola o problema na Assembléia Legislativa, a Folha abre o leque e aponta algumas direções para a apuração dos fatos. Uma dessas pistas vai conduzir a um conjunto de empresas ligadas a deputados da autodenominada bancada evangélica.
Na quarta-feira (5/10), este observador deu curso a uma brincadeira do site humorístico G17, dizendo que o pastor Silas Malafaia havia inventado um spray que “tira o diabo do corpo”. Esse milagre o religioso ainda não fez, e disso se penitencia o observador, mas há indícios de que ele participa de um grupo muito influente no Legislativo paulista, formado a partir de dissidências da igreja Renascer, empreendimento da família Hernandez, cujos integrantes costumam frequentar o noticiário policial. Por trás de seus movimentos pode-se notar a organização de negócios suspeitos dissimulados como atividade religiosa.
Nas áreas de comentários de blogs na internet que repercutem o escândalo, muitos evangélicos se manifestam contra essa mercantilização da religião, que reforça preconceitos contra as igrejas protestantes.
No rastro das emendas suspeitas há empresas de fachada, um esquema envolvendo farmácias e convênios médicos e odontológicos, uma gráfica que não imprime sequer uma folha de papel e tem contrato com o estado.
Um dos acusados no caso das propinas, o ex-deputado José Antonio Bruno, do partido Democratas, montou uma estrutura de comunicação que vem crescendo rapidamente, com novas emissoras por todo o país. Ao romper com a igreja Renascer, ele se dedicou a criar essa rede, da qual faz parte o pastor Silas Malafaia, e que se consolida rapidamente como um verdadeiro partido, talvez o mais poderoso do Legislativo paulista.
Essa seria uma pauta básica para um trabalho jornalístico sério, se realmente a imprensa quer ir fundo nas denúncias do deputado Barbiere.


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